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Minerais estratégicos no Brasil: o que são, onde estão e por que importam

mar 12, 2026 | Engenharia, Oportunidades

O setor mineral brasileiro encerrou 2025 com um saldo comercial de US$ 37,6 bilhões, cifra que representa 55% do saldo total da balança comercial do país, que fechou o ano em US$ 68,3 bilhões. O faturamento do setor atingiu R$ 298,8 bilhões, crescimento de 10,3% em relação ao ano anterior. 

Os números mostram o peso da mineração na economia nacional, mas há um aspecto qualitativo por trás dessa grandeza que vai além do volume exportado: a natureza das substâncias que o Brasil detém em reserva.

O mundo vive uma disputa crescente por insumos essenciais às tecnologias de energia limpa, à eletrificação da mobilidade, à defesa e à segurança alimentar. No centro desse movimento estão os minerais estratégicos, substâncias com reservas expressivas, potencial produtivo consolidado e aplicações diretas em setores de alta importância tecnológica e comercial.

O Brasil ocupa uma posição singular nesse quadro. Com reservas mapeadas de mais de uma centena de substâncias minerais, o país se coloca ao lado de Austrália, Canadá, Rússia, China e África do Sul entre as maiores potências geológicas do mundo. 

Entender o que são os minerais estratégicos, onde estão localizados e qual é o papel que desempenham na economia global ajuda a dimensionar o que está em jogo para o setor mineral brasileiro.

O que são minerais estratégicos

Minerais estratégicos são aqueles que apresentam dotação mineral nacional significativa, com potencial de produção e aplicação em setores de importância tecnológica e comercial em nível nacional. Essa definição, consagrada na regulamentação e na literatura técnica do setor, ancora o conceito em critérios objetivos.

Para que um mineral seja classificado como estratégico, é necessário que ele atenda, conjuntamente, aos seguintes critérios:

  • Apresenta dotação mineral nacional significativa, com reservas relevantes em escala global;
  • Possui demanda de exportação na forma bruta ou beneficiada;
  • Representa importância econômica interna, sendo utilizado em processos produtivos que contribuem para o adensamento da cadeia de valor;
  • É aplicado em produtos de alta tecnologia;
  • É essencial para a descarbonização da economia e contribui para a transição energética.

A lógica dos minerais estratégicos parte da abundância. O Brasil tem, o mundo precisa, e há tecnologia e mercado que justificam o investimento produtivo. Essa é uma equação diferente, e complementar, à dos minerais críticos, tratados no tópico a seguir.

Minerais estratégicos e minerais críticos: qual é a diferença?

Os dois conceitos costumam aparecer juntos, mas representam lógicas distintas. Os minerais estratégicos partem da abundância nacional. Os minerais críticos partem da vulnerabilidade de suprimento.

Um exemplo prático ajuda a distinguir os dois casos. O potássio e o fosfato são minerais críticos para o Brasil: o país é um dos maiores consumidores mundiais de fertilizantes, mas depende da importação desses insumos para abastecer a agricultura. Já o nióbio, o ferro, a grafita, o alumínio e as terras raras têm caráter estratégico: o Brasil detém reservas expressivas, produz em escala e exporta com relevância global.

Quais são os minerais estratégicos do Brasil e suas aplicações

O portfólio de minerais estratégicos brasileiros é amplo. O país figura entre os cinco maiores detentores de reservas e entre os cinco maiores produtores de diversas substâncias com aplicações diretas nas tecnologias que sustentam a economia global.

Entre esses minerais, o nióbio merece atenção especial. O Brasil detém mais de 90% das reservas mundiais conhecidas e lidera a produção global, uma posição de domínio sem paralelo em qualquer outra substância mineral. A cadeia produtiva do nióbio já atingiu estágios avançados de maturidade, com aplicações que vão da produção de aço de alta resistência ao desenvolvimento de baterias de nova geração para veículos elétricos, resultado de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento.

A grafita é outro mineral de destaque. Com a segunda maior reserva mundial e tecnologia de processamento em desenvolvimento, o Brasil está bem posicionado para se tornar um fornecedor relevante de anodos para baterias, componente central das cadeias de mobilidade elétrica. O desenvolvimento de grafeno a partir de grafita nacional amplia ainda mais as possibilidades de aplicação.

O papel dos minerais estratégicos na transição energética

A transição para uma economia de baixo carbono criou uma dependência que poucos anteciparam: a dependência de minerais. Ao substituir combustíveis fósseis por tecnologias limpas, a indústria global passou a consumir volumes crescentes de substâncias que, até pouco tempo, tinham mercados relativamente restritos.

Os números ilustram bem essa mudança. Desde 2010, a quantidade de minerais necessária por unidade de capacidade instalada de geração renovável cresceu 50%. Veículos elétricos consomem até seis vezes mais minerais do que veículos convencionais. Turbinas eólicas onshore demandam até nove vezes mais materiais do que termelétricas a gás equivalentes. Na prática, um veículo elétrico pode utilizar 60 kg de cobre, contra 24 kg de um veículo à combustão, e pode conter de 1 a 4 kg de elementos de terras raras, ante os cerca de 100 mg presentes nos modelos tradicionais.

Projetando esse crescimento para o futuro, em um cenário alinhado aos compromissos do Acordo de Paris, a demanda global por minerais estratégicos deve avançar de forma expressiva nas próximas duas décadas:

  • Cobre e terras raras: crescimento de até 40%;
  • Níquel e cobalto: aumento entre 60% e 70%;
  • Lítio: expansão de quase 90%;
  • Em um cenário de emissões líquidas zero até 2050: a demanda pode ser multiplicada por quatro, exigindo até seis vezes mais insumos em 2040 do que os volumes consumidos hoje.

Nesse contexto, o Brasil tem um diferencial competitivo concreto. Com mais de 90% da matriz elétrica composta por fontes renováveis, o país opera com custo energético cerca de 50% inferior ao de outros países. Essa condição, conhecida como powershoring, atrai investimentos industriais intensivos em energia, como plantas de processamento de minerais, produção de baterias e fabricação de componentes para energias renováveis. Somada à abundância de reservas minerais estratégicas, coloca o Brasil em posição diferenciada no mapa global da transição energética.

Minerais estratégicos no Brasil: cenário atual e perspectivas

O Brasil está entre as dez regiões mais relevantes do mundo como fornecedor potencial de minerais estratégicos, levando em conta critérios como extensão das reservas geológicas, estratégia do setor mineral, estabilidade política, disponibilidade de mão de obra especializada e desempenho ambiental. Esse posicionamento vem sendo acompanhado por avanços regulatórios importantes.

O Projeto de Lei nº 2.780/2024 institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), respondendo ao aumento da demanda global e alinhando o Brasil às regulamentações já adotadas por mais de 20 países. A política representa um sinal regulatório relevante para a atração de investimentos e a estruturação de cadeias produtivas nacionais.

Os minerais estratégicos aparecem diretamente em todas as seis missões do Plano Nova Indústria Brasil (NIB), o que evidencia a transversalidade do tema na política industrial brasileira:

  • Missão 1, Cadeias agroindustriais: ferro, alumínio, cobre, manganês e grafita como insumos para máquinas, equipamentos e infraestrutura
  • Missão 2, Saúde: titânio, manganês e zinco para produção de equipamentos médicos e dispositivos
  • Missão 3, Infraestrutura nas cidades: cobre, alumínio, silício, estanho, zinco, lítio, níquel, manganês e cobalto para painéis fotovoltaicos, baterias e mobilidade elétrica
  • Missão 4, Transformação digital: alumínio, silício, manganês, níquel, cobalto, cobre, estanho, terras raras e tântalo para semicondutores e microeletrônicos
  • Missão 5, Bioeconomia e transição energética: ferro, cobre, alumínio, zinco, níquel e grafita para descarbonização industrial e geração de energia renovável
  • Missão 6, Defesa e aeroespacial: nióbio, titânio, cobalto, terras raras, tântalo e alumínio para tecnologias críticas soberanas

O principal desafio do setor está no adensamento da cadeia de valor. A produção nacional tem caráter predominantemente exportador de bens primários. Avançar para os estágios de transformação mineral, produção de componentes e manufatura de produtos acabados é o caminho para converter reservas em valor econômico real, empregos qualificados e participação competitiva nas cadeias globais.

Oportunidades e tendências para o setor

Tendências estruturais

Antes de 2040, projeta-se que os minerais da transição energética superem o carvão em rentabilidade, tornando-se a principal fonte de receita da mineração global. Essa mudança indica que o setor mineral brasileiro não está apenas diante de um ciclo de exportação de commodities, mas de uma reconfiguração mais profunda de sua inserção na economia global.

A economia circular ganha espaço como caminho complementar. Ao contrário dos combustíveis fósseis, que são consumidos de forma irreversível na combustão, os minerais estratégicos têm alto potencial de reutilização e reciclagem. Isso abre mercado para a chamada mineração urbana, baseada na recuperação de materiais secundários a partir de baterias, equipamentos eletrônicos e infraestrutura em fim de vida útil.

A digitalização do setor mineral é outro eixo de transformação em curso. Ferramentas de inteligência artificial para predição de teores, otimização de processos e monitoramento de estruturas já estão sendo adotadas pelas principais operações minerais do país. A rastreabilidade digital da cadeia de valor, por sua vez, passa a ser requisito de acesso a mercados internacionais com exigências rigorosas de ESG.

Oportunidades concretas

  • Adensamento da cadeia de valor: desenvolver capacidade produtiva nos estágios de transformação mineral, produção de precursores e manufatura de componentes, capturando maior valor ao longo da cadeia.
  • Atração de investimentos via powershoring: a matriz energética renovável e o custo competitivo da energia posicionam o Brasil como destino adequado para plantas de processamento de alta intensidade energética.
  • Rastreabilidade e ESG: a digitalização da cadeia produtiva como requisito de acesso a mercados premium, especialmente Europa e América do Norte.

Riscos a monitorar

  • Concentração geográfica do processamento: a China detém cerca de dois terços do refino global de minerais estratégicos, criando assimetria estrutural nas cadeias de suprimento.
  • Volatilidade de preços: variações nos preços de lítio ou níquel podem elevar em até 6% os custos finais das baterias; cobre e alumínio representam 20% dos investimentos em redes elétricas.
  • Ciclos longos de desenvolvimento: projetos minerais demandam, em média, mais de uma década entre a prospecção e a operação plena, o que exige planejamento de longo prazo e estabilidade regulatória
  • Ambiente tributário: a incidência do Imposto Seletivo sobre bens minerais e as taxas de fiscalização de recursos minerais (TFRM) são pontos de atenção para a competitividade exportadora.

Do potencial geológico à execução segura: o desafio técnico da nova economia mineral

O Brasil reúne condições concretas para ocupar um espaço relevante na nova economia mineral global: reservas expressivas de minerais estratégicos, matriz energética de base renovável, arcabouço regulatório em construção e política industrial que reconheça o tema como prioritário.

Empreendimentos no setor de minerais estratégicos têm complexidade própria. O porte dos investimentos, os requisitos ambientais e a exigência técnica envolvida demandam parceiros com conhecimento aprofundado e experiência comprovada no setor. É esse suporte que transforma reservas mapeadas em projetos viáveis.

Com mais de 40 anos de atuação em geotecnia e hidrotecnia aplicadas à mineração, a BVP atua na concepção, desenvolvimento e gestão de projetos complexos, apoiando decisões com base técnica rigorosa e experiência multidisciplinar. 

Se este tema se conecta aos desafios da sua operação, entre em contato e converse com nossa equipe técnica. Será um prazer entender o seu cenário e avaliar, juntos, os próximos passos.

 

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